2.4.09

Watchmen

O ano é 1985. O Estados Unidos venceram a Guerra do Vietnã e Richard Nixon é reeleito para presidente pela terceira vez e candidato a outra. A tensão entre americanos e russos aumenta durante a Guerra Fria e o conflito nuclear se torna iminente. No passado, um grupo de pessoas comuns transvestiam a sociedade em suas roupas exageradas no combate ao crime. Ganharam popularidade até que uma lei coibiu os atos vigilantes. Quando um destes antigos heróis é assassinado, Rosrchach – que também perteceu ao grupo chamado de Watchmen – começa uma investigação clandestina e descobre uma conspiração que envolve o passado do grupo e que pode culminar com um futuro catastrófico.

Após muita disputa (inclusive judiciais) entre os estúdios de cinema norte-americanos para estabelecer a quem pertenceria os direitos de adaptação da graphic novel Watchmen, enfim o filme chega aos cinemas. Publicada na década de 1980, escrita por Alan Moore e desenhada pod Dave Gibbons, a trama questiona até que ponto a humanidade necessita de super-heróis? A produção sempre foi cercada de ceticismo pelos fãs, que assim como seu criador, acreditavam ser impossível transformar uma das melhores HQ's de todos os tempos em um filme satisfatório. A razão para tal suspeita era justa, já que a maioria das adaptações das obras de Moore são risíveis (ele não aceita ter seu nome associado aos créditos de nenhuma adaptação cinematográfica).

Coube ao jovem cineasta norte-americano Zack Snyder a missão de reproduzir toda a riqueza dos originais da Nona Arte para as telas de cinema. Considerado uma promessa entre os diretores da nova geração, por causa dos bons trabalhos anteriores, Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 2004) e 300 (2006), o verbo reproduzir cabe perfeitamente como uma descrição do diretor. No longa de 2004, ele soube utilizar muito bem os dogmas criados por George Romero para o universo dos zumbis. Em 2006, adaptou também dos quadrinhos a obra de Frank Miller sobre os soldados de Esparta e caiu nas graças do público e da crítica. Novamente em 2009 ele retorna aos cinemas com outra belíssima transposição de comics para o cinema, com toda a fidelidade que uma mitologia e seus fãs merecem. Mas fica a questão, quando Snyder colocará seu estilo ao invés de seguir a cartilha do mestre?

Somente com a tecnologia digital existente hoje, foi possível criar Watchmen nos cinemas. O visual e os efeitos da película são apurados, os enquadramentos são praticamente os mesmos dos quadrinhos e até alguns diálogos são iguais, tudo contruído de forma obsessiva pelo diretor que consegue nas 2h36 minutos de projeção abranger quase tudo o que foi contado nas páginas das 12 edições originais da trama. Detalhes importantes que ficaram de fora: Os Contos do Cargueiro Negro, história paralela que é mostrada na HQ e que funciona como metáfora (este apêndice será lançado como animação em DVD, com a narração do ator Gerard Bluter, o Leônidas de 300) e os "Bernies" que funcionam como o cidadão comum na história. O final é o mesmo, porém o "agente da ação" foi modificado e funciona melhor para o cinema, nada que desfigure brutalmente o desfecho original.

A escolha de atores semi-desconhecidos do grande público é outro ponto positivo da produção. Estão no elenco: Billy Crudup (Dr. Manhattan), Jackie Earle Haley (Rorschach), Malin Akerman (Espectral II), Matthew Goode (Ozymandias), Patrick Wilson (Coruja II), Jeffrey Dean Morgan (Comediante) e Carla Gugino (Espectral I). A personagem azulada e intrigante de Dr. Manhattan é uma grata surpresa, pois corria o risco de ficar artificial demais por conta dos efeitos especiais e do reconhecimento de movimentos empregado para criá-lo. O amoral Comediante também cativa a platéia, mas não consegue superar a presença de Rorschach na tela. O Coruja e a bela Espectral II tem seus bons momentos, mas são prejudicados pela narrativa do filme.

A história perde ritmo com a introdução de cada um deles, em alguns momentos muito bem conduzida e em outros arrastada. Principalmente após a apresentação do Dr. Manhattan, o que torna o filme cansativo. A alternância entre suspense, drama, comédia também incomoda, fica a sensação que faltou encontrar o tom certo para a produção. O uso da trilha sonora para nos situar nos anos 80 mais atrapalha do que ajuda. The Times They are A-Changing, de Bob Dylan, ficou fantástica nos créditos iniciais e combina perfeitamente com o contexto apresentado. Unforgettable, de Nat King Cole, também funciona na cena chave para a investigação de Rorschach. As demais músicas não parecem coexistir com as respectivas cenas e soam como um videoclip dos bons tempos da MTV ou soam ridículas com a cena de sexo ao som de Hallelujah, de Leonard Cohen.

Entre erros e acertos, Watchmen é bom filme e se considerarmos o grau de dificuldade de sua adaptação, ganha mais pontos em sua avaliação. Porém, parece muito mais destinado aos leitores da HQ do que para o público comum.

Ficha Técnica:
Watchmen
EUA, 2009 - 156 min
Ação / Drama / Ficção científica

Direção: Zack Snyder

Roteiro: Alex Tse, David Hayter

Elenco: Jackie Earle Haley, Patrick Wilson, Billy Crudup, Jeffrey Dean Morgan, Malin Akerman, Matthew Goode, Carla Gugino, Matt Frewer, Stephen McHattie, Laura Mennell, Robert Wisden

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