Walter Kowalski é um aposentado da indústria automobilística onde trabalhou após servir seu país na Guerra da Coréia. Ranzinza, mal-humorado e rascista, o veterano de guerra acaba de ficar viúvo. Após o funeral de sua esposa, tudo o que deseja é beber sua cerveja na varanda e manter o seu bem cuidado jardim longe dos vizinhos. Guarda em sua garagem um impecável Ford Gran Torino, modelo 1972, lembrança dos tempos áureos da vida. É justamente seu estimado automóvel que irá aproximá-lo de seus odiados vizinhos asiáticos.
O novo trabalho do diretor Clint Eastwood reforça a sensibilidade de suas últimas produções. Parece simples, mas é a habilidade adquirida ao longo dos anos pelo cineasta que se faz parecer fácil. A personagem rabugenta de Kowalski é uma amálgama de outras personas vividas pelo Eastwood ator: a aspereza de Dirty Harry (Dirty Harry, 1971), a busca pela redenção de William 'Bill' Munny de Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992) ou a implicância com a igreja de Frank Dunn em Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004). Todos eles tratam de temas como vida, morte, solidão, amizade e salvação.
O roteiro se torna ainda mais atual se traçarmos um paralelo entre a ficção e a realidade sócio-econômica dos Estados Unidos, que atravessa um período longo de crise em seu sistema. As poderosas indústrias automobilísticas onde Kowalski trabalhou, hoje estão à beira da falência, seus filhos trocaram as tradicionais marcas americanas por modelos asiáticos maiores e mais baratos. O bairro onde mora, cada vez mais se torna um reduto de imigrantes orientais que não falam inglês, principalmente a comunidade hmong; que o intérprete de Eastwood não tolera, que lutaram ao lado dos EUA na Guerra do Vietnã e após a derrocada estadunidense escolheu a América para recomeçar suas vidas.
O preconceituoso e irredutível Kowalski precisa se decidir entre a reclusão após morte de sua esposa ou conviver com a sociedade à sua volta. A situação envolvendo seus vizinhos Tao e Sue se torna preponderante para sua decisão. Os defeitos habituais nos filmes de Eastwood não tardam a aparecer, conhecido por terminar as filmagens antes do tempo previsto, o cineasta também carrega a fama de ser um diretor irregular de atores, justamente por fazer poucos takes de cada cena. O ator Bee Vang, que interpreta o hmong Tao, não desponta nos momentos mais dramáticos da trama. Um detalhe pequeno, para uma carreira cada vez mais brilhante.
A Magnum .44 já não está mais na cintura de nosso anti-herói, mas o gesto dos dedos apertando o gatilho já basta para intimidar. Vida longa ao cinema de Eastwood.
Ficha TécnicaGran Torino
EUA, 2008 - 116 min
Drama
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk, Dave Johannson
Elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, Chee Thao
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